Entramos, hoje, no tempo litúrgico do Advento, preparando-nos para celebrar o nascimento do Divino Mestre que veio para nos salvar, dar-nos vida e vida em plenitude; quando os corações se voltam para a segunda vinda de Cristo que voltará para julgar os vivos e os mortos, quando as pessoas se deixam envolver pela ternura do Natal e pela santidade de uma noite em que se inclinam reverentes ante o recém-nascido na manjedoura de Belém. Porém, ao lado desta abençoada vivência, convivemos com movimentos que agridem a vida, como é o caso de tentativas de legalização do aborto no país. O aborto não é outra coisa senão infanticídio. É inacreditável que em pleno século XXI, com tanto progresso tecnológico e científico, haja um regresso meteórico à idade da pedra, quando os homens não sabiam bem distinguir entre o bem o mal e matavam suas crianças e, certas tribos, comiam suas carnes.
Há projetos que, pasmemo-nos, pretendem dar à mulher o direito de assassinar seu filho até o nono mês de gravidez. É trágico. A argumentação a favor deste descalabro é totalmente falha e marcada por uma fragilidade inacreditável. Defendendo o pretenso direito incondicional da mulher sobre o seu corpo (sem levar em consideração o direito da criança sobre o dela), não apresentam outro motivo para a proposição senão o fato de haver muitos abortos clandestinos e mortes de mães provenientes deste procedimento ilegal. Mas matar é sempre ilegal. A única exceção seria a legítima defesa que nada tem a ver com o caso em questão. Matar um ser humano e, sobretudo uma criança indefesa é sempre um crime horrendo. A afirmação ilusória de que legalizando se diminuirá o número de abortos é na verdade enganadora, pois nos países em que o aborto foi legalizado, o número de abortamento aumentou escandalosamente. No mais, é muito curioso que para combater um mal, se busque a insana ilusão de legalizar o mal. É como se quiséssemos legalizar o roubo para acabar com o roubo, legalizar a violência para acabar com a violência, legalizar a prostituição para acabar com a prostituição. Isto é, no mínimo, total ausência de racionalidade. O aborto é sempre um crime. A criança que está no seio materno é, desde a concepção, um ser humano de direitos e que merece mais proteção da lei que outros porque não pode ainda se defender por si mesma. O embriologista Lewis Wolpert é de opinião que o momento da concepção é o mais importante de nossa existência, até mais importante do que o nascimento, o casamento ou a morte. A doutora Alice Teixeira Ferreira, médica, Coordenadora do Núcleo Interdisciplinar de Bioética da UNIFESP, afirma que ser a favor da descriminalização do aborto equivale a ser conivente com o assassinato de embriões e fetos que, já são vidas humanas. A mesma Cientista denuncia que para aprovar esta lei, recursos sórdidos estão sendo usados como estatísticas enganosas e apelos propagandistas duvidosos.
A legalização do aborto, em suas variadas formulações de autores diferentes, faz parte de uma orquestração internacional de grupos de interesse. Muitos são os motivos (todos falhos) que levam a proposição de legalizar o aborto. Entre estes motivos, não se exclui nem mesmo o escandaloso e milionário comércio de embriões e de favorecimentos político-ideológico. Os abortistas recebem ainda apoio das chamadas “Católicas pelo Direito de Decidir”. Estas não podem, na verdade, serem consideradas católicas porque estão completamente à margem do Magistério eclesial. Já houve quem dissesse que, antes de tudo, o que estas mulheres devem decidir é se elas querem ser católicas, pois com as posições que têm, nada diz que estejam na unidade da Igreja.
Preparando a celebração da noite santa do Natal, o que mais exige o momento histórico é agir concreta e conjuntamente para defender a vida e sua dignidade em nosso país.
Dom Gil Antônio Moreira - arcebispo metropolitano




